domingo, 20 de junho de 2010

REQUISITOS TÉCNICOS PARA FOTÓGRAFOS DE EVENTOS

FONTE: O Texto seguinte foi retirado da comunidade do Orkut " Quero ser fotógrafo(a)" publicado em 29/07/2008 pelo autor Marino Prieto.
LINK DA POSTAGEM: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=41451952&tid=5228170604594760204&na=1&nst=1


Antes de mais nada, vale dizer que ninguém precisa ser um bom fotógrafo para
encontrar um nicho e fazer dinheiro com fotografia social (eventos, retratos,
ensaios, tudo em quê as fotos não vão ser usadas comercialmente nem em editoriais). Ter
um bom tino comercial é muito mais importante, se esse for o objetivo, pois
mercado é o que não falta para coisa boa ou coisa ruim. Não acho que valha
apena discutir coisa ruim, porém, por mais que seja comercialmente bem sucedida - a
idéia aqui é discutir fotografia, afinal.
O primeiro pré-requisito básico para a coisa pode ser colocado com o seguinte
exercício: se eu jogar uma DSLR qualquer (de qualquer marca) e três objetivas
(fixas) diferentes na mão da pessoa (nada de flash), ela tem que saber:
- Encontrar o modo M e fazer fotos expostas corretamente em ambientes de
iluminação diferente. Ou seja, ela sabe o que é abertura, tempo de exposição e
ISO, sabe interpretar um fotômetro e um histograma, e sabe se posicionar
corretamente levando em conta a luz do ambiente;
- Escolher dentre as objetivas qual utilizar para diferentes propósitos. Para
isso, ela precisa saber o que é abertura máxima, o que é profundidade de campo
e saber se posicionar corretamente levando em conta a perspectiva que cada
objetiva lhe proporciona;
- Visualizar mais ou menos o que será feito com a imagem no tratamento
mesmo que o tratador seja outra pessoa. Isso é importante para informar uma
série de decisões, como fotografar em RAW ou não, se preocupar com temperatura
de cor ou não, priorizar ISO, abertura ou tempo de exposição nos ajustes de
exposição, etc;
Isso é o básico do básico. Adiante: acrescente um flash e objetivas zoom.
- A pessoa tem que saber usar uma zoom, tem que ter consciência de que não é só
um joguinho de aproximar as coisas, mas sim de variar perspectivas. Idealmente,
deve trabalhar da mesma forma que trabalharia com as fixas, só que sem precisar
trocar de objetiva. O cara tem que saber o que está perdendo para ganhar essa
comodidade, inclusive;
- O fotógrafo tem que saber equilibrar flash e luz ambiente. Foto com jeito de
caverna, nem em caverna - o fundo nunca deve "sumir". Saber equilibrar a
temperatura de cor do flash para o ambiente é quase pedir demais, mas seria bom
pelo menos saber que isso é uma questão relevante;
- Tem que saber a relação entre flash e tempo de exposição, e como usar isso de
diferentes maneiras na prática.
Finalmente, juntando todos esses requisitos, o cara tem que saber lidar com
tudo isso em tempo real, na prática, preparado para falhas de equipamento,
mudanças de planos do cliente e outras surpresas.
Essas coisas todas são banais para muita gente, amadores e profissionais, mas o
que eu vejo na prática é muito fotógrafo se aventurando profissionalmente sem
dominar um ou mais desses requisitos básicos. Várias perguntas de fórum também
revelam deficiências - por exemplo, quem domina o que eu listei não tem por que
fazer perguntas do tipo "que objetiva comprar para fazer X?" (ele simplesmente
sabe o que vai precisar) ou "câmera Y serve para fotografar Z?" (ele
simplesmente lê as especificações da câmera e sabe a resposta). De uma forma ou
de outra, tudo isso engloba o COMO fazer, e é requisito necessário, mas não
suficiente, para ser um bom fotógrafo. O que falta é saber O QUÊ fazer, e aí
entra a necessidade de sempre buscar um PONTO DE VISTA.
Concentrando-se em fotografia de casamento, ter um ponto de
vista significa ter um conjunto de objetivos bem definidos, mas ao mesmo tempo
flexíveis, antes de iniciar o trabalho. Em outras palavras, você vai lá para
fazer o quê, exatamente? O fotojornalista tem a pauta, o fotógrafo publicitário
tem o layout, o fotógrafo de moda tem o conceito, e o fotógrafo de evento, como
é que fica?
Na fotografia de casamento tradicional, esse conjunto de objetivos é algo
bastante rígido. Dá para se fazer literalmente uma lista de "fotos
obrigatórias", mais uma lista de cada uma das configurações para as poses
formais no início da recepção, revisar tudo com a cerimonialista e a noiva
antes do evento, preparar tudo, testar e então seguir a coisa à risca.
Funcionava para nossos pais, e serviu para dar à fotografia de casamento a
justa fama de ser uma coisa monótona e cafona, e por isso saiu de moda (viva!)
Hoje a palavra chave é "fotojornalismo", o que é bom e é ruím. É bom porque
casamento tem tudo a ver com a abordagem fotojornalística; fotógrafos que
sabem o que estão fazendo estão revigorando a coisa, e ver seus álbuns
de casamento já não é uma tortura. Ao mesmo tempo, é ruim porque o
termo se tornou a desculpa perfeita para fotógrafo cabeça de bagre achar que é
só chegar lá e fotografar de qualquer jeito, que não precisa mais ter nenhum
objetivo explícito, que o bacana é o "natural" e o "espontâneo". Nesses casos,
ver o álbum de casamento se tornou uma tortura maior ainda que antes, pois os
fotógrafos tradicionais ao menos sabiam usar um flash e não inventavam
diagramações patéticas com efeitos bregas do photoshop.
O que diferencia o bom do ruim é que o bom tem objetivos. Ele tem cultura e
referências para saber o que é contar uma história visualmente, e suas fotos
não são aleatórias. Ele sabe estruturar sua abordagem em cada fase diferente do
evento, não da forma rígida e sempre igual do fotógrafo tradicional, mas
individualizada para cada evento específico, buscando mostrar o que fez dele um
acontecimento diferente do casamento da semana passada.
As únicas duas receitas para se ter objetivos é se envolver de corpo e alma com
o evento (e com as pessoas que fazem parte dele) e acumular referências,
sabendo traduzi-las para a sua realidade e suas questões práticas.
Um dos fotógrafos de casamento que eu mais admiro se chama Jeff Ascough
(vejam o site dele, quem ainda não viu). Duas das principais
referências que ele aponta para seu trabalho são o Sebastião Salgado e o
James Nachtwey, e não é tão difícil de ver isso nas fotos que ele faz, apesar
dos caras serem de áreas completamente diferentes. Sem essas e outras
referências, por maior que seja o domínio técnico do cara, não teria como ele
ser o puta fotógrafo que é. Referências são muito importantes.
Envolvimento com o trabalho também é fundamental. Cada um deve desenvolver
o seu jeito de se fazer isso, mas em comum todos tem
que ter a auto-crítica, a análise constante, não só abordando questões técnicas
objetivas, mas também pontos subjetivos que poderiam facilmente ser descartados
como "filosofia vazia".
Um exemplo prático, partindo de uma pergunta bobinha. Qual é o
significado das fotos feitas durante um casamento, fora compor um álbum que a
noiva vai ver uma vez a cada dois anos? Claro que existem vários respostas a
isso, algumas delas subjetivas demais e inúteis, mas outras totalmente
relevantes para o nosso trabalho. Uma delas, que todo fotógrafo toma
consciência algum dia, é de que ele possivelmente estará fazendo as últimas
fotografias da vida de alguns membros da família dos clientes. Talvez as pessoas
guardem e usem essas imagens, feitas no casamento, para lembrar dessas pessoas
por anos. Isso é uma baita responsabilidade, ou ao menos deveria ser, para quem
leva seus clientes e seu trabalho a sério. A questão que surge é, como podemos
fazer isso melhor, como podemos fazer retratos dessas pessoas que serão memoráveis,
que mostrarão um pouco da individualidade de cada um deles?
Pense nos membros mais velhos da sua própria família. Qual a primeira imagem e
o primeiro adjetivo, relacionado a cada um deles, que vem à mente? O que os
torna indivíduos de fato, o que os diferencia uns dos outros? Pensando essas
coisas, certamente surgiram várias idéias sobre como fotografá-los capturando
essa essência que quem convive de perto com eles conhece bem. O desafio no
casamento está em fazer isso, ou ao menos TENTAR fazer isso da melhor
forma possível, com gente que você acabou de conhecer. Para isso você tem que
treinar o hábito de ser um bom observador, um bom leitor de expressões e
maneirismos e, claro, ser um fotógrafo eficiente para traduzir tudo isso em imagens.
E então, informado por toda essa filosofia-barata-que-não-serve-pra-nada
(segundo alguns), você já chega ao evento com mais um objetivo em sua lista,
mais uma razão para não virar poste nem fotografar aleatoriamente, e contribuir
para no final entregar um trabalho melhor, mais individualizado para cada cliente.
Outro exemplo: qual o significado de um casamento? Não me interessam as
respostas açucaradas padrão, mas sim o que ele significa objetivamente, de
verdade, e como isso pode informar nosso ponto de vista ao trabalhar.
Para mim um casamento é um marco em vários relacionamentos. No relacionamento
dos noivos (que podem ter namorado por dez anos, ou terem se conhecido três
meses atrás), no relacionamento de cada um dos noivos com seus pais (que podem
estar felizes ou não com a coisa), com seus irmãos, talvez com seus filhos (que
podem aprovar ou não o padrasto/madrasta). A palavra chave é RELACIONAMENTO, e
visualmente isso se pode ser traduzido de diversas maneiras.
Na prática, no meu trabalho isso resulta em dois objetivos muito importantes antes e
durante o evento:
1) Descobrir o máximo possível de informações sobre como diferentes pessoas que
estarão presentes se relacionam umas com as outras. As fontes geralmente são os
próprios noivos, mas muitas vezes a mãe da noiva e a cerimonialista também
ajudam. Conversas com convidados complementam na hora H;
2) Usar as informações obtidas para prever, se antecipar, ficar de antena
ligada para situações que possam ocorrer que de alguma forma ilustrem os
relacionamentos. Mesmo quando o tema principal da foto é outro, incluir algo
assim no quadro enriquece a imagem.
Ou seja, durante o evento eu já tenho um tema básico para me nortear, algo para
buscar a todo instante, e mais uma vez tenho motivo para não virar poste ou
fotografar aleatoriamente.
Para encerrar. O local do evento (ou locais) mais a decoração são extremamente
importantes na memória dos clientes. Mostrá-lo de forma criativa, mesmo que
você já tenha coberto dez mil eventos no mesmo lugar, mesmo que a decoração
tenha sido muito parecida em todos eles, é um desafio para todo fotógrafo.
Conseguir vencer esse desafio, principalmente com fotos que mostrem as
particularidades do local E coisas interessantes acontecendo, é uma das coisas
que diferencia fotógrafo bom de fotógrafo ruim. E aí entram, mais uma vez, as referências de
cada um.
Ao entrar num ambiente, trabalhando ou não, fotógrafo tem que ter o hábito de
buscar detalhes interessantes. Espelhos são o clichê mais comum, e
contorcionismo em frente a espelhos (para estudar ângulos para fotos do que
está refletido) deve ser um dos exercícios básicos de todo fotógrafo.
Como é a variação de luz em diferentes pontos? Que sentimentos,
que referências a decoração traz à mente? Como é que você vai incluir isso no
quadro?
A chave aqui é formar um banco de dados de imagens, vendo filmes, lendo
revistas, seja como for, e conseguir fazer associações com itens desse banco
durante os eventos. Disso acabam surgindo vários objetivos ao longo do evento,
fotos que você já pré-visualizou e basta apenas antecipar algum momento
interessante para executá-la de fato.
A questão mais ou menos filosófica implícita aqui é, o que torna um evento
específico visualmente único, e como um fotógrafo encontra isso e filtra de
acordo com seu estilo? Você responde estudando seus trabalhos prévios, mas
principalmente estudando suas referências. Não defendo que todos têm que ter as
mesmas referências que eu, mas todos
têm que ter ALGUMA referência, e têm que saber usá-la para informar seu
trabalho. Senão vira poste.

Nenhum comentário: